A série de comentários que tenho visto no meu blog e no do
Marcos Santos leva-me a a pensar que às vezes o debate é realmente de surdos. Torna-se às vezes um debate de crenças, em que os factos dos adversários que contrariam o outro são ignorados, ou considerados menos importantes. Porque a crença de que temos razão nos obscurece a mente.
Eu falo da Noruega, da Bélgica, da Holanda. O Marcos fala da Dinamarca, dos Estados Unidos. Cada um de nós pode citar exemplos a favor daquilo que acredita. E às tantas já não se estão a discutir factos, montanhas de factos. Estão-se a discutir crenças. E os argumentos são irrelevantes quando se discutem crenças, como todos sabemos.
É de esperar que um funcionário de uma empresa a defenda, ou pelo menos que não a ataque. Ou que dela saia, se se tornar realmente crítico da sua actuação.
Eu tenho a felicidade de trabalhar numa empresa com cuja ética e linhas de actuação concordo, o que me dá conforto, e que me faz querer continuar por lá. As minhas ideias não vêm do sítio onde trabalho, pelo contrário, trabalho num sítio onde as minhas ideias não só não são violentadas, mas são até valorizadas.
Posso pensar que o Marcos Santos se identifique com a sua empresa no sentido em que é a "maior empresa de software do mundo", o que o deve encher de orgulho. E que até faz algum software de qualidade (nem todo..). Tem de varrer para algum canto da consciência alguma falta de ética que é constantemente denunciada em relação à empresa dele. Pode dizer que são só algumas ovelhas negras, ou que "eram outros tempos", ou que todas as empresas ambicionam ser monopolistas, a Microsoft é apenas invejada porque o conseguiu. E continuar a olhar para o "bom software" que a Microsoft produz.
Pois é, eu não me consigo ver a trabalhar numa empresa que valoriza a eliminação sistemática dos concorrentes, que faz campanhas "Get the Facts" cheias de FUD, a denegrir o que eu defendo, a denegrir os produtos derivados de um espírito colaborativo de trabalho, em que há competição pelo mérito, e cooperação sempre que possível, e sempre, sempre, transparência no que se faz.
Vejo nestas discussões as crenças e os preconceitos sobreporem-se à razão. Vejo atacarem-se irrealistas cenários futuros (monopólios 2.0..) , e fecharem-se os olhos aos monopólios existentes, à tirania das decisões tomadas em contactos a alto nível com os deslumbrados com o homem mais rico do mundo.
As minhas crenças não são as de que quem é mais poderoso tem razão. As minhas crenças são de que a razão e a verdade triunfam, contra a inquisição, contra o nazismo, contra a tentativa de esconder as verdades científicas porque contrariam a religião ou os interesses económicos.
Mais terra a terra, as minhas crenças são na liberdade de escolha, e no mérito. São valores que permeiam a cultura do software livre. São valores que entram em conflito com os negócios feitos nos gabinetes, com as trocas de favores entre pessoas influentes.
As minhas crenças não me fazer pensar que todo o software livre é bom. Há bom, e há mau. Mas o mau melhora-se, ou dá origem a projectos alternativos.
O software livre não estagna, porque há sempre quem queira fazer melhor, e novos projectos tomam o lugar dos que chegarm a becos sem saída. Como na evolução. O Internet Explorer parou no tempo quando se tornou "o que toda a gente usava", e só recomeçou a melhorar quando surgiu o browser Opera e depois o Firefox com melhorias tão gritantes que as pessoas deixaram de usar "a norma". O Microsoft Office parou no tempo, e só deu uma grande volta quando o OpenOffice.org surgiu nos relatórios da Microssoft como uma ameaça aos seus lucros.
A minha crença é que o software proprietário conduz à estagnação assim que o monopólio é atingido. Que a súbita conversão da Microsoft às normas abertas desaparecerá assim que consiga afastar a ameça de formatos que não controla.
A minha crença é na evolução técnica, na troca e partilha de ideias, na discussão aberta, nos produtos e normas abertas.
Qual é a vossa crença?