04 novembro 2006

A contabilidade do acordo Novell - Microsoft

Fiquei surpreendido mas satisfeito com o anunciado acordo entre a Novell e a Microsoft. Como gosto de perceber o que se passa, detive-me um pouco a tentar compreender quem ganha o quê com ele.

Novell
Sem dúvida que é um bom acordo para a Novell:
- Dá-lhe um maior protagonismo no mundo empresarial, nomeadamente face à Red Hat
- Como a Microsoft até vai recomendar Suse Enterprise Linux vai poder abordar clientes Microsoft com uma maior respeitabilidade
- Pode aumentar a sua penetração no emergente mercado da virtualização, onde a Novell aposta com o Xen
- Facilita a interoperabilidade entre Windows e Suse Enterprise Linux, através da ligação entre o MS Active Directory e o Novell eDirectory
- Posiciona-a como um parceiro importante no mercado do Office - nem a Sun tem um acordo com a Microsoft na área da compatibilidade entre o Open Document Format (OpenOffice,org, Staroffice) e o Open XML (MS Office 2007)
- Permite-lhe avançar com mais segurança para projectos de migração de dot.net para Mono

Comunidade open-source
A comunidade open-source também ganha com este acordo. Para já é uma evolução passar de "cancro" para "parceiro".. Antevejo críticas cerradas por causa da menção de troca de patentes, mas de um ponto de vista realista só há a ganhar com uma maior protecção obtida para projectos como o Samba. Também só há a ganhar com uma maior interoperabilidade entre o Linux e o Windows, o OpenOffice.org e o MS Office, entre o Mono e o dot.net. A barreira da mudança tem de baixar ainda mais para permitir mais migrações do mundo do software proprietário para o mundo do software livre

Microsoft
Onde me detive mais longamente foi a tentar perceber as motivações da Microsoft. O significado é nitidamente menor. Basta ver os sítios da Novell e da Microsoft para o perceber: o que é um clímax para a Novell só surge submerso com press-release no sítio da Microsoft
Creio que as multa da Comissão Europeia pela falta de interoperabilidade do Windows Server será a motivação principal, como já o teria sido quando do acordo entre a Microsoft e a Sun Microsystems. Aí havia também o grande esforço da Microsoft para penetrar no mercado empresarial.
A Microsoft vai também tentar afirmar-se mais no campo da virtualização, encapsulando Linux quando os clientes insistirem nele.
Algo mais?

5 comentários:

Gonçalo SIlva disse...

Algo mais?

Secalhar a Microsoft aposta num futuro talvez não muito próximo, onde o seu OS deixará de ter o monopólio nas workstations e vê na interoperabilidade dos seus productos com o SO que poderá a vir a ter um bom share desse mercado uma boa maneira de continuar a vender o que realmente lhes dá lucro.

Primeiro a interoperabilidade, quiça posteriormente não vem a compatibilidade.

Rui Seabra disse...

A comunidade open-source também ganha com este acordo.

Apenas a Novell e a Microsoft ganham com este acordo. Nenhuma comunidade de programadores ganha seja o que for excepto risco acrescido.

Para já é uma evolução passar de "cancro" para "parceiro"..
É preferível que a Microsoft nos veja como um cancro do que como um parceiro, enquanto mantiverem o modelo de negócios deles. Ser parceiro de gangsters não é benefício nenhum. Este acordo é um esquema de extorsão em larga escala.

Antevejo críticas cerradas por causa da menção de troca de patentes
Troca de patentes? Isso é o menor dos problemas.

Os problemas reais são

* Os programadores comerciais não ganham

os programadores que desenvolvem Software Livre em contexto comercial que não sejam funcionários da Novell estão em risco.

* Os programadores não comerciais não ganham
embora possão não desenvolver comercialmente podem estar a desenvolver programas que nunca serão incluídos em distribuições comerciais com medo de serem processadas...

mas de um ponto de vista realista só há a ganhar com uma maior protecção obtida para projectos como o Samba.

Realista dizes tu, mas a realidade é que o projecto Samba tem várias empresas que não são a Novell a ganhar dinheiro com ele, inclusive empresas dos principais autores do Samba, que muitas dores de cabeça têm dado à Microsoft com o mega-processo da UE. ESTES TAMBÉM NÃO GANHAM.

Também só há a ganhar com uma maior interoperabilidade entre o Linux e o Windows,

Só que isto é mentira. Só é verdade se em vez de "Linux" disseres Novell Suse

o OpenOffice.org e o MS Office,

Mentira, não há interoperabilidade. A compatibilidade limita-se a ser no sentido ODF para OpenXML, uma vez que só neste sentido pode existir graças ao "Open" ser para inglês ver, pois objectos binários enfiados dentro de XML são tão "Open" como uma parede de cimento no lugar de janelas.

entre o Mono e o dot.net.

Este acordo disse a toda a gente: malta, se o Mono não for utilizado em servidores Novell... podem ser processados!


A barreira da mudança tem de baixar ainda mais para permitir mais migrações do mundo do software proprietário para o mundo do software livre
Software Livre que só pode ser distribuído comercialmente pela Novell NÃO É SOFTWARE LIVRE.

Aliás a licença GNU GPL provavelmente será violada se distribuírem software sob a GPL nestas condições de patentes.

Sim, porque o problema principal das patentes no que diz respeito a este acordo é: a Novell disse ao mundo: "malta, o [GNU/]Linux viola patentes da Microsoft!"

A Novell traiu-nos a todos, e até o Phipps viu isso.

pvilela disse...

Sabemos que para a Microsoft o que interessa é crescer o negócio. Vejo isso aqui em dois sítios:
- royaltees pagas pela Novell à Microsoft pelo direito de usar CODECs do WMV e qujandos, e as APIS do Active Directory (são as únicas que fazem sentido falar..)
- ganhar royaltees por cada Linux vendido se for instalado no software de virtualização da Microsoft

Ao mesmo tempo Balmer ameaça outros vendedores da área de Software livre de possíveis processos, numa tentativa de os fazer assinar acordos semlhantes.

Não me parece que quem esteja fora da Novell esteja mais ameaçado hoje do que estava há uma semana atrás. Por isso não considero que tenha havido qualquer traição por parte da Novell.

Há dois trajectos que têm de ser percorridos em paralelo

- È essencial ter todo um stack de software livre, como defende o Richard Stallman, e assim não estarmos dependentes de nínguem

- Contudo, enquanto não não se consegue uma utilização mais generalizada desse software, é necessário possibilitar uma possibilidade de interagir com o mundo MS, de permitir por exemplo que uma pessoa que use Linux veja os WMV e os DOCS que lhe são enviados

E podes ter a certeza que eu protesto sempre e tento explicar porque não se devem utilizar esses formatos proprietários. Mas para muita gente isso é irrevante.

Talvez passe a ser mais relevante se o MS conseguir acabr com a pirataria :-)

Zarluk disse...

Esse acordo é fabuloso para a Microsoft!

Agora, pode dizer que até a Novell reconheceu que poderia haver violações de patentes no GNU/Linux. Poderá (irá) servir também como argumento junto da Comissão Europeia e das autoridades de outros países no sentido de "deixarem passar" legislação sobre patentes de software.

Para a Novell, já não sei se terá sido uma jogada tão inteligente. Apesar de a principal prejudicada ser a sua rival Red Hat (que parece ser o alvo a abater), tenho sérias dúvidas que não se transforme numa nova SCO...

Quanto às outras empresas que se dedicam ao SL, é apenas mais um motivo de preocupação ("será que eles nos irão processar agora?").

Quanto ao "cancro vs parceiro" e à interoperabilidade entre o OpenOffice e o MSOffice, faço minhas as palavras do Rui Seabra: não quero ser parceiro de mafiosos nem acredito que o OpenOffice benificie algo com isso...

Rui Seabra disse...


- Contudo, enquanto não não se consegue uma utilização mais generalizada desse software, é necessário possibilitar uma possibilidade de interagir com o mundo MS, de permitir por exemplo que uma pessoa que use Linux veja os WMV e os DOCS que lhe são enviados


Mas que parte é que não entendeste de que isto não é para o GNU/Linux em geral mas APENAS para o Novell SUSE Enterprise?

O próprio Steve Ballmer confirma.. só para NOVELL SUSE COSTUMERS